Assim, M. Peck dividiu a sua obra em quatro partes, a saber: a disciplina, meio para a evolução espiritual humana; o amor, que fornece o motivo e a energia para a disciplina; desenvolvimento e religião, entendimento do mundo e lugar que nele ocupamos; e graça, conceito essencial para a compreensão do processo de desenvolvimento do homem.
Deste modo, em Disciplina, logo na primeira página lê-se: “a vida é difícil”. Na sequência desta afirmação o autor interpela-nos, perguntando se queremos resolver os problemas ou lamentarmo-nos; se queremos ensinar os nossos filhos a resolvê-los.
Nos capítulos seguintes são apresentadas as ferramentas necessárias, segundo o autor, para “inculcar em nós próprios e nos nossos filhos os meios para conseguir a saúde mental e espiritual”. Segundo Peck, estas ferramentas possibilitam-nos enfrentar a dor e os problemas de uma forma construtiva e consistem em sermos capazes de adiar a gratificação; b) aceitar a responsabilidade; c) dedicar-se à verdade; e d) manter o equilíbrio. O autor acrescenta ainda que a eficácia da utilização destas ferramentas reside exclusivamente na vontade de as usar.
Na segunda parte, O Amor, o autor apresenta várias definições deste conceito, afirmando que o amor é “a vontade de expandir o Eu com o objectivo de alimentar o seu próprio desenvolvimento espiritual ou o de outrem”. O autor acrescenta ainda que a expansão do Eu é um processo evolutivo. Como tal, não seremos capazes de amar se não nos amarmos a nós próprios. No entanto, este processo implica esforço porque nos obriga a ultrapassar os nossos limites, sendo para tal necessário ter a vontade de transformar o desejo em acção.
Há, portanto, que desmistificar ideias pré-concebidas sobre o amor e perceber que o amor verdadeiro exige disciplina e contribui para o desenvolvimento espiritual do outro.
Na terceira parte, Desenvolvimento e religião, o autor explora a relação existente entre a religião e a ciência da psicologia. Peck afirma que à medida que os seres humanos evoluem espiritualmente o seu entendimento do mundo e do seu lugar nele também se torna mais claro.
O autor refere ainda que este entendimento do mundo constitui a nossa religião, apelando assim a uma concepção de religião mais ampla em detrimento de uma visão restrita em que a religião estava tradicionalmente associada a um determinado grupo religioso.
Consequentemente, todos nos movemos num quadro de referência restrito associado à nossa cultura e à nossa experiência de vida. Nesta perspectiva, o desenvolvimento espiritual é uma caminhada do microcosmos (pessoal) para o macrocosmos (universal) e só será possível através do aumento contínuo dos nossos conhecimentos e do nosso campo de visão.
Na quarta parte, A graça, o autor expõe alguns fenómenos de difícil explicação, como por exemplo a resistência individual à doença; a interpretação dos sonhos; o sincronismo e o serendipismo, que têm ocorrência universal e estão intimamente ligados ao desenvolvimento espiritual do homem.
A evolução humana é apresentada como o grande mistério, já que contraria a 2ª lei da termodinâmica, segundo a qual o universo está em contracção, existindo uma força, a entropia, que nos puxa para o caos. Ora, para o autor, a entropia está materializada na preguiça dos seres humanos, que devem tomar como sua a responsabilidade de evoluír espiritualmente e de educar os seus filhos para serem também evoluídos espiritualmente.